terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Minha Pátria é a Língua Portuguesa

Oito meses depois, continuamos a nos sentir em casa na terra de Pessoa e Camões. Já me senti muito mais estrangeiro em alguns sertões do Brasil. "Minha pátria é a língua portuguesa" dizia Pessoa. Digo com ele ô pá...


Língua: Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. Gosto de ser e de estar. E quero me dedicar a criar confusões de prosódia. E uma profusão de paródias. Que encurtem dores. E furtem cores como camaleões. Gosto do Pessoa na pessoa. Da rosa no Rosa. E sei que a poesia está para a prosa. Assim como o amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior?E deixe os Portugais morrerem à míngua: “Minha pátria é minha língua”. Fala Mangueira! Fala!Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó. O que quer. O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas. E o falso inglês relax dos surfistas. Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda. E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate. E – xeque-mate – explique-nos Luanda. Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo. Sejamos o lobo do lobo do homem. Lobo do lobo do lobo do homem. Adoro nomes. Nomes em ã. De coisas como rã e ímã. Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã. Nomes de nomes. Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabée Maria da Fé. Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó. O que quer. O que pode esta língua? Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção. Está provado que só é possível filosofar em alemão. Blitz quer dizer corisco. Hollywood quer dizer Azevedo. E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo. A língua é minha pátria. E eu não tenho pátria, tenho mátria. E quero frátria. Poesia concreta, prosa caótica. Ótica futura. Samba-rap, chic-left com banana (– Será que ele está no Pão de Açúcar?– Tá craude brô– Você e tu– Lhe amo– Qué queu te faço, nego?– Bote ligeiro!– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!– I like to spend some time in Mozambique– Arigatô, arigatô! Nós canto-falamos como quem inveja negros. Que sofrem horrores no Gueto do Harlem. Livros, discos, vídeos à mancheia. E deixa que digam, que pensem, que falem."

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